Blérgh!

Robozinho, eu?



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Muito frequentemente tenho percepções estranhas com relação ao tempo. Incomoda ter que gastá-lo com tanta coisa mecânica e sem sal, a eterna sensação de tê-lo perdido, definitivamente. Esse milionésimo de segundo aqui, por exemplo, foi-se para sempre, para a terra das horas já carcomidas. E outros milionésimos estão indo também para lá, agora mesmo, de novo. E eu penso que queria tê-los utilizado de maneira mais sábia - não no caso desses aqui, pois tempo gasto com escrita é 100% de aproveitamento – queria lembrar deles lá na frente como milionésimos de segundos felizes e bem aproveitados, e não com essa idéia de desperdício que tenho em mente. É tanta coisa que se esvai com eles, que me sinto quase sempre perdendo nessa matemática.


Sei da necessidade de tarefas mecânicas. Sei que é preciso trabalhar e prover sustento. Só que estou sempre sabotando esses processos, todos os dias. Há horas em que eu quero ler Rimbaud, numa urgência severa, e entre as coisas chatas que eu tenho que fazer no trabalho e o poético, estou sempre tendendo a abortar as coisas chatas, mesmo as indispensáveis. Faço-as com desdém, sempre de forma muito rápida e objetiva, para que sobrem milionésimos a serem gastos no que realmente me interessa. E é nessa hora que eu acho aquele texto foda, que me traz tudo que eu estava procurando ler, saber, entender, e então eu aproveito o tempo milimetricamente, com alimento para a alma. E lá no finzinho do expediente eu faço aquele bando de coisa chata que tinha de ser feito. Rs.


Definitivamente eu não nasci para o burocrático. Há tanto além do quadrado do escritório, tanta vida por todo lado, que me recuso a ficar encarcerada, engaiolada. Vejo as pessoas nas ruas em sua pressa costumeira, passando por cima de tudo e acho muito absurdo que um relógio ou mesmo o dinheiro roube delas a possibilidade de frear essa maluquice toda. Correr para mim não é aproveitar nada. Eu, com o passar dos anos, venho desenvolvendo uma técnica maravilhosa de não-corrida. Quando estou atrasada, aí mesmo é que me recuso a correr. E vou na moita, aceitando que estou fora do horário e que isso não é tão fatal assim, e que não vão lançar outra bomba sobre Hiroshima porque eu cheguei meia hora depois do previsto. Eu tenho louvado regularmente a vagareza, no mais alto estilo vagabundagem. Eu não acredito que nós fomos colocados aqui embaixo para viver correndo, de fast food em fast food. Deve haver algum lugar em que se possa sorrir mais, aproveitar mais... Tem que haver um jeito de tudo não ser assim tão pateticamente mecânico.


É por isso que eu me recuso a aceitar, terminantemente. Quero burlar isso tudo, quero a contemplação como objetivo de vida. E sempre que eu consigo, os milionésimos de segundo são plenamente vividos, posso olhar para eles com o orgulho de quem não aceita ser robô de nada, nem escrava de nenhum papel moeda. Pena mesmo é que não seja possível praticar a letargia todo o tempo. Pena esse atropelo, pena essa falta de, parar tudo, simplesmente. Pena que as pessoas vivam em suas bolhas particulares, e que não olhem para o lado vez em quando. Eu ainda olho.

Publicado em 25 de julho de 2008 às 15:07 por estela

Comentários

    • Se todos fossemos sábios como voce, Estela, o mundo seria um lugar melhor ainda para se viver. Na verdade, se "viveria" nele. Belíssimo texto, como sempre.
    • por silvia -
    • 25.Jul.2008 às 12:10 - Permalink - Reportar
    silvia -
  1. estela
    • A grande m... é que todos somos esses robozinhos, sempre desejando poder fazer todas as coisas "humanas e bacanas" que queremos... mas OH! Surpresa, essas coisas todas exigem um mínimo de dinheiro ou conforto que só nossa vida de robozinho pode prover...
      É um saco estar na engrenagem do capitalismo.
      Mas... que sistema é infalível, não?
    • por maven
    • 25.Jul.2008 às 13:58 - Permalink - Reportar
    maven
    • É Maven, estou nessa engrenagem, mas a vontade é não estar, todo o tempo. Hoje acho q é um péssimo dia para refletir qualquer coisa, tô o próprio cocô do mundo. :( Mas passa.
    • por Estela
    • 28.Jul.2008 às 11:08 - Permalink - Reportar
    Estela
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