
Ramal Santa Cruz, Rio de Janeiro, vagão de trem. Em pé, com dor em todos os poros existentes. A face da desolação era visível, pois bem sei que não consigo fingir felicidade quando necessário. Uma lágrima que rola tão clara, imensa, cai de 1,74m de altura, cuja trajetória foi percebida por um passageiro que estava sentado. Por comiseração, acho eu, ele me oferece o seu lugar e eu aceito, para que então eu passe a derramar as próximas em meu próprio colo, ao invés de regar os que estão sentados.
Sempre aparece quem fale de Deus, e foi o que fez o passageiro gentil. Eu sei de Deus, eu ando com ele, entretanto, lágrimas são presentes e serão sempre, em qualquer lugar que eu quiser que elas caiam. E neste caso elas têm uma infinidade de motivos para cair, nada que não tenha solução, mas motivos reais. Acho que seria prudente aprender a guardá-las para evitar os olhares de pena do público? Não. Fico pensando às vezes o que acham de mim as pessoas que me olham enquanto choro, não que eu me preocupe com o que pensem. Quando vejo suas caretas ao meu encontro procurando decifrar o motivo das lágrimas – acho que todos fazem isso quando vêem alguém chorando – eu vejo que choro, independente do que imaginem ou suponham estar acontecendo.
Algumas lágrimas depois, ritual de recomposição do que restou. Olhos inchados, posso vê-los no espelho do blush. E todos acompanham meus gestos no trem, gostam de acompanhar as minhas esquisitices, é impressionante. Uma camada de pó compacto, o blush amigo, dois traços de lápis de olho, batom e voilá, tudo quase de volta ao lugar. É chegada a estação Central do Brasil e mais um dia de trabalho me espera. Na mente a certeza de que os cosméticos podem tratar e tentar tornar apresentável o externo, tarefa fácil, pena é que não possam amenizar também o que vai por dentro. Se eu pudesse, passaria um batom vermelho carmim no coração, colocaria-lhe um salto alto e mandaria pra balada, ver gente, oxigenar, bombear sangue novo rejuvenecedor. Mas não posso nada disso. O coração hoje é um velho, ranzinza, de pantufas, assistindo Sessão da Tarde e esperando a hora de parar.
Publicado em 29 de julho de 2008 às 18:08 por estela