
Lembro como se fosse hoje. Estava eu na primeira fila do Canecão, num show que eu não sei mais se era Zélia Duncan ou Calcanhotto, e era fim de show. Alguém encostou, pedindo passagem, bem perto do palco. Olhei para trás e não vi ninguém, abaixei os olhos e vi-o, educado, olhos com expressão de cansaço. Era o Herbert, o Vianna. Aquele, dos meus vinis de tanto tempo empoeirados.
Pode ser este assunto datado para um texto, mas o fato é que ele continua impressionando a muitos por aí. Lembro que eu rezava, enquanto ouvia as notícias no rádio e acompanhava a tragédia que o assolou, e pelos andares sentia um infinito pesar, parecia claro que nem eu, nem o Brasil, teríamos mais ele compondo, ou cantando, ou mesmo vivo. Graças a Deus ele ainda canta, ainda compõe, ainda vive.
Todo o dinheiro do mundo para tratamentos? Uma força de vontade tamanho Highlander? Um amor à arte que suplantou o improvável? Uma memória emocional que trouxe de volta as letras todas? Até hoje eu me pergunto o que aconteceu afinal. O fato é que ele continua, e vendo-o no palco pode-se comprovar o quanto ele ainda é inteiro, mais que eu e que muitos, contrariando todos os nefastos prognósticos. Uma mente brilhante que trabalha com limitações extremas, e continua juntando palavras e acordes, para nossa estupefação.
Mesmo para quem não é chegado à obra do Herbert, ou do Paralamas, há que se perceber a grandeza do que aconteceu com ele. Era tudo para dar errado, era uma vida de vegetal quase 100% consumada. E quantos de nós ainda não vivemos vagando por aí no mundo, feito vegetais, sem ter sofrido acidente algum. Ele preferiu fazer a fotossíntese, reinventar a vida à dar-lhe cabo, e sua seiva está aí, elaborada para nós. Sei que estou já nos limiares da pieguice, mas perdoem, é próprio de fã. Fiz questão de registrar isso aqui hoje mais por mim que pelo Herbert, para sentir nas vísceras o quanto eu não tenho motivos pra reclamar da vida. Não é coerente que ele seja tão gigante, tendo vivido tudo o que viveu, e eu tão mísera, lamentando a morte da bezerra e achando os meus problemas enormes. Hoje eu ando e me arrasto sobre o tempo. Ele anda sobre rodas, e flutua.
Publicado em 30 de julho de 2008 às 18:00 por estela