
Um dia eu já fui uma gramatiqueira. Era cricri, implicava com quem usava errado o pronome oblíquo, corrigia as pessoas, não admitia falhas, pensava que no mínimo as pessoas tinham que saber perfeitamente o seu próprio idioma. Isso até antes de começar o meu curso de Pós em Língua Portuguesa e dar de cara com a Sociolingüística. Acabei abraçando a idéia de tal maneira que meu trabalho de fim de curso seguiu esta linha. Foi um aprendizado estupendo que quebrou minhas regras atrasadas e idiotas e me tornou uma pessoa melhor. Eu teria todo direito de corrigir quem eu quisesse, mas não o faço. Eu poderia discutir derivação, mas não o faço, e nem quero.
Não é preciso ir muito longe, muitas discussões aqui no Tipos falam sobre a gramática, até porque o seu bom uso deve ser assunto entre os jornalistas. Num texto formal eu entendo que a norma culta/padrão deva ser observada, mas na informalidade, acho uma tremenda bobagem, pedante até. Não entendo como a comunicação pode vir antes das regras de gramática, se a língua foi feita para estabelecer a comunicação, antes de qualquer coisa. A língua é viva, em constante movimento, molda-se à medida que os falantes assim necessitam, por mais que queiramos o contrário. Novos vocábulos são inseridos, aportuguesados, transformados, novas construções são estabelecidas e muitas outras ainda serão, mesmo que torçamos nossos narizes – e a língua seguirá seu ciclo de renovação, independente de nós.
Celso Cunha e Bechara escreveram compêndios fabulosos, eu os tenho. Comprei e raramente faço uso: sua escrita rebuscada e suas regras, algumas discutíveis e dispensáveis, acabam por desmotivar a leitura e o aprendizado. Não que eles sejam completamente inúteis, óbvio que não, muito há para ser absorvido em suas leituras, mas quem consegue entendê-los, francamente? Se eu que sou estudante da língua me perco, imagine os leigos. Aí os professores Pasquale da vida lançam seus fascículos e caem no gosto do público. Mas quem é esse Pasquale? Um estudioso da língua ou um mero aproveitador + excelente marketing? Eis a questão. Não sei até que ponto ele presta serviço, ou desserviço. Aprender as regras é possível, agora aprender até onde podemos ir com essa insistência em ver tudo corretinho, em nossa fala/escrita e principalmente nas alheias, talvez seja um pouco mais complicado, pois requer uma dose cavalar de bom senso.
Escrever bem nem sempre é observar todas as regras, há ilustres escritores que erram, e nem por isso deixam de transmitir suas idéias. Erros crassos não são bonitos, claro, devemos evitá-los sempre que possível, mas viver encarcerados pelas regras e pensar em todas elas no momento da escrita torna-a um trabalho de Hércules, quando não precisaria ser assim. No momento em que corrigimos outrém, devemos nos ater ao fato de que estamos expondo esta pessoa ao ridículo público, como se ela tivesse cometido um pecado contra a castidade idiomática. Que castidade? Onde está escrito que ela existe? A função de ensinar deveria ser unicamente exercida pelos professores, em seus recintos próprios. Corrigir, pura e simplesmente, para demonstrar superioridade de conhecimento é disseminar a discriminação social através da linguagem, é considerar erro tudo aquilo que escape às garras do padrão perfeitinho da Gramática normativa. A língua é nosso instrumento para comunicar, e isso inclui saber ouvir, respeitar e compreender o interlocutor.
Publicado em 18 de dezembro de 2007 às 10:48 por estela
Bom mesmo é o nosso Fiscal da Gramática.
Tome cuidado com o paulofreirismo, Estela. Esse papo de que "tudo é válido" é perigoso. O construtivismo destruiu a educação brasileira.