Publicado em 10 de novembro de 2008 às 10:38 por estela

Sim, eu posso construir coisas. Imagino, planejo, trabalho os pontos, vejo o resultado se materializar. As pessoas gostam das coisas que eu faço. Ficam espantadas com a desenvoltura com que trato as linhas, monto os gráficos, prego miçangas, contas e paetês brilhantes. O resultado nem sempre é estupendo, mas como faço crochê desde criança, às vezes os trabalhos ficam realmente muito bons, sem falsa modéstia, e eu gosto deles. Eles me ocupam e esvaziam a mente. Crochetando eu anulo todo o resto e tenho a sensação terápica e rara de construir.
A vida é tão somente isso: tecer. Esperar que se alcance o melhor resultado. Esconder as emendas das linhas no avesso do trabalho porque os nós, e os defeitos, não causam uma boa impressão aos outros - ninguém gosta de coisas que foram emendadas apenas pelo ônus da continuidade. É um trabalho de recuperar a paciência perdida, aceitando que ainda há muito que se fazer até que a peça esteja pronta em suas mãos, e até que você possa mostrar aos outros, com orgulho, a sua finalização.
Às vezes a linha embola. Às vezes a agulha escapa da mão e mergulha sozinha no piso da sala, como se recusasse sua função de trabalhar os pontos. Aí eu retomo, estou no comando. Quase o fim da carreira de pontos altos, e é bom demais chegar lá na beirada, dobrar a esquina da peça. O recomeço às vezes é em ponto baixo, ponto alto, ponto baixo. O tempo todo assim, na vida e nas peças de crochê. O trabalho em ponto baixo não rende, mas mesmo ele, de ponto em ponto cresce também, com mais dificuldade, é verdade. E mais demora.
Ponto alto do dia de hoje: crochetar e esquecer as preocupações.
Ponto baixo do dia de hoje: preocupações que voltam assim que eu largo o novelo de linha.

Publicado em 04 de agosto de 2008 às 14:16 por estela

Eleição em vista é sempre um período lúdico em minha pacata existência. É um negócio tão decadente e descabido que eu me detenho a rir – é o que me resta - do que eles chamam de engajamento da massa popular, democracia, cidadania e todas essas -ias sem fim. O alimento para meus acessos de riso pelo menos está garantido, neste período festivo de congraçamento. O curioso é que as informações risíveis estão sempre nas páginas oficiais – ou seja – não é humor, é Eleição, por incrível que pareça.
O que eu gosto mesmo são os cãodidatos. Fico sempre impressionada com suas alcunhas e seus discursos, os fenomenais slogans e jingles de campanha. Neste ano feliz, por exemplo, há trocentos e não sei quantos malucos espalhados pelo Brasil afora concorrendo às vagas. Vereadores então, estes costumam ser os mais engraçados do pedaço. Pouca grana para campanha os faz verdadeiros mártires, e alguma coisa eles têm que bolar para sobressair entre os demais, e como geralmente erram na mão, o meu contentamento é supremo. Naquelas localidades Deus-me-livre-e-guarde, há criaturas dignas de respeito. Porque não basta ser candidato, tem que vir com um apelidinho simpático, revelador, identificador. É assim que surgem as alcunhas mais estapafúrdias do mundo, e é nesse momento que eu dava tudo pra morar nessas cidades. Dizem que essas alcunhas aparecem na urna quando se digita o número do candidato. Até que eu conseguisse parar de rir para configurar o voto, levaria um tempo considerável. Tempo alegre. E é isso que eu quero em minha vida. rs.
Consegui decifrar o processo de criação que envolve essas alcunhas tão belas. Tudo tem um foco. Alguns cãodidatos resolvem apelar para a meiguice e escolhem um apelido fofinho. É o caso do Pintinho – PRTB; o Rozico, o Tatico, o Titico, a Gilda Nogueira, a “Amor”, e o que dizer do ilustre Carlos Alberto Januário da Silva - PHS, o popular Chú? Gente, quem não votaria no Chú? Fofo demais, uma Hello Kitty pra ele agora. Outro processo para se criar alcunhas passa pela composição de nome + de/da + elemento identificador. Para este caso temos o Marcão da Caçamba, o Pintinho do Matadouro, o Neném do Boi, o Naná do Rojão, a Nice da Reforma e o Nino do Micro-ônibus. Simples e prático. Há também os que apelam para o estômago dos eleitores, procurando trazer-lhes lembranças degustativas felizes. Aí temos o Sr. Antônio Alberto, o querido Toinho Pastel, o Fabinho do leite, outro Antônio, o Três Côco (sim, no singular mesmo), e o Zé mamão, ótimo para prisão de ventre. Deu até fome agora.
Alguns são tão escabrosos que me fogem ao raciocínio, mas isto se deve apenas a minha total incapacidade de penetrar em seus mundos tão particulares. O Edmilson Casa Véia, por exemplo. E a tal “Vânia, filha do Vavá do Bode”? É difícil minha gente. Carlos Armando, por exemplo, é o Carlinho do pelado – PSB. Deve ter seu significado, deve ter. Outros queridos ilustres, sabedouros de que sua campanha irá para o brejo, aproveitam a oportunidade dos holofotes para divulgar seus pequenos comércios, um jabazinho básico. Este é o caso da Dulcicleide - PTN, a Kekeu Fotos; o José Edson, Baixinho da Eletrônica ou o José Remilson, o Pelé da Parabólica. E há muitos outros, e como há, é que eu não tive tanta paciência assim pra procurar. Temos ainda a presença de vários bichinhos, o Pingüim, o Paca, e até o Totó, Antônio Rodrigues Félix – PSDB. Só pra finalizar o quadro de esquisitices, alguns nomes duvidosos. Veja bem se você votaria em Cristiano Oliveira, a famosa Kika? Ou o Alex Sandro, a Karol Furacão? Esses nomes realmente passam credibilidade.
Breve eu recolho outros mais. A lista é grande meus caros, preciso de tempo hábil para analisá-la com a acuidade que ela merece. Essa lista do TSE é um manancial. Rs.
Publicado em 01 de agosto de 2008 às 17:09 por estela
O Tipos sempre cagou pros meus anseios. Também né, quer ter anseios vá pra outro lugar, caráio. Mesmo assim, conto a vocês o meu causo: desde que aqui comecei a colocar os meus caracteres, sempre quis mudar meu layout. Já fiz diversas perguntas perdidas por aí e nenhuma resposta contundente. Eu e o Blérgh não queremos ter essa cara monótona todo o tempo, esse ar blasé, sem sal, sem luxo, eu tô no SUS dos blogs, meu povo. Convenhamos, essa vista pobrinha não combina nem com o título, que dirá com o resto deste espaço. Consegui cavar de alguém que estava em implantação uma tal de Layout Machine, que até agora não rolou. Alguém sabe me dar qualquer informação neste sentido? Como vocês podem observar, aparência é um negócio que eu prezo. E mudo o tempo inteiro também.
Outra cagada torrencial foi a minha tentativa de inclusão de meus banners no Tipos Sortidos. Ninguém me deu a menor pelota. Postei lá no outdooronline, mandei e-mail educadinho pro Moraes [que se escafedeu, acho eu] e nenhum sucesso. Claro que meus banners não são o primor da criação artística, mas ora bolas, eu me sinto renegada em não ter esse espaço de 400 por 130 px. Eu quero. Eu também faço parte dessa coisa toda. Quem é o patrão disso aqui, afinal? Seja lá quem for, piedade e comiseração, sou uma tipiana sempre presente, tenho o meu valor [afe, ficou horrível isso, simata Estela]. Eu rezo todo dia pra São Cipriano, um dia ainda abro o Tipos e dou de cara com um banner meu, nem que seja em 2050.
E como meus banners nunca saíram do anonimato, nem da caixa de e-mails do Moraes, ficam eles aqui sob protesto, que eu tô pura rebeldia rock’n’roll hoje. Quero saber onde é o SAC do Tipos, e se vier moça de telemarketing eu mato, tô descontrol. Pronto, protestei.




Publicado em 01 de agosto de 2008 às 11:43 por estela

Ah sim. Fui acordada hoje pela notícia de que a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro decidiu tirar das mãos dos policiais os seus fuzis. E trocá-los por carabinas. Levando-se em conta que um fuzil causa estrago em média até a distância de dois quilômetros do alvo, e a carabina à 400m, fica mais difícil do policial matar alguém sem saber quem é, a não ser que ele seja bem míope.
Acho isso de uma lindeza ímpar. Principalmente pelo fato de que os fuzis serão extintos das ruas, mas poderão ainda ser usados em operações nas áreas de risco. E se eles, da Secretaria de Segurança, assumem com esta determinação que há policiais despreparados para portar tais armamentos – por isso mudam o poder de alcance do estrago – permitem ao mesmo tempo que tais policiais usem à vontade seu armamento nas áreas críticas, ou seja, que se foda quem mora na favela, pode tomar de fuzil à vontade. Grandes merda se morrer um ou três, depois escrevem lá no jornal que o morto era do tráfico, mesmo se não fosse, só pra ficar bunitinho.
Treinar os caras para usar tais armas? Treinar os caras com táticas dignas e prudentes em suas operações? Aí não, disso ninguém fala. A bala perdida não pode acontecer em Ipanema, no asfalto dos turistas e da classe privilegiada, mas pode tranquilamente varar o barraco do cidadão no Complexo do Alemão. Acho um barato esse raciocínio.
Publicado em 31 de julho de 2008 às 12:46 por estela

Lembro como se fosse hoje. Estava eu na primeira fila do Canecão, num show que eu não sei mais se era Zélia Duncan ou Calcanhotto, e era fim de show. Alguém encostou, pedindo passagem, bem perto do palco. Olhei para trás e não vi ninguém, abaixei os olhos e vi-o, educado, olhos com expressão de cansaço. Era o Herbert, o Vianna. Aquele, dos meus vinis de tanto tempo empoeirados.
Pode ser este assunto datado para um texto, mas o fato é que ele continua impressionando a muitos por aí. Lembro que eu rezava, enquanto ouvia as notícias no rádio e acompanhava a tragédia que o assolou, e pelos andares sentia um infinito pesar, parecia claro que nem eu, nem o Brasil, teríamos mais ele compondo, ou cantando, ou mesmo vivo. Graças a Deus ele ainda canta, ainda compõe, ainda vive.
Todo o dinheiro do mundo para tratamentos? Uma força de vontade tamanho Highlander? Um amor à arte que suplantou o improvável? Uma memória emocional que trouxe de volta as letras todas? Até hoje eu me pergunto o que aconteceu afinal. O fato é que ele continua, e vendo-o no palco pode-se comprovar o quanto ele ainda é inteiro, mais que eu e que muitos, contrariando todos os nefastos prognósticos. Uma mente brilhante que trabalha com limitações extremas, e continua juntando palavras e acordes, para nossa estupefação.
Mesmo para quem não é chegado à obra do Herbert, ou do Paralamas, há que se perceber a grandeza do que aconteceu com ele. Era tudo para dar errado, era uma vida de vegetal quase 100% consumada. E quantos de nós ainda não vivemos vagando por aí no mundo, feito vegetais, sem ter sofrido acidente algum. Ele preferiu fazer a fotossíntese, reinventar a vida à dar-lhe cabo, e sua seiva está aí, elaborada para nós. Sei que estou já nos limiares da pieguice, mas perdoem, é próprio de fã. Fiz questão de registrar isso aqui hoje mais por mim que pelo Herbert, para sentir nas vísceras o quanto eu não tenho motivos pra reclamar da vida. Não é coerente que ele seja tão gigante, tendo vivido tudo o que viveu, e eu tão mísera, lamentando a morte da bezerra e achando os meus problemas enormes. Hoje eu ando e me arrasto sobre o tempo. Ele anda sobre rodas, e flutua.
Publicado em 30 de julho de 2008 às 18:00 por estela

Ramal Santa Cruz, Rio de Janeiro, vagão de trem. Em pé, com dor em todos os poros existentes. A face da desolação era visível, pois bem sei que não consigo fingir felicidade quando necessário. Uma lágrima que rola tão clara, imensa, cai de 1,74m de altura, cuja trajetória foi percebida por um passageiro que estava sentado. Por comiseração, acho eu, ele me oferece o seu lugar e eu aceito, para que então eu passe a derramar as próximas em meu próprio colo, ao invés de regar os que estão sentados.
Sempre aparece quem fale de Deus, e foi o que fez o passageiro gentil. Eu sei de Deus, eu ando com ele, entretanto, lágrimas são presentes e serão sempre, em qualquer lugar que eu quiser que elas caiam. E neste caso elas têm uma infinidade de motivos para cair, nada que não tenha solução, mas motivos reais. Acho que seria prudente aprender a guardá-las para evitar os olhares de pena do público? Não. Fico pensando às vezes o que acham de mim as pessoas que me olham enquanto choro, não que eu me preocupe com o que pensem. Quando vejo suas caretas ao meu encontro procurando decifrar o motivo das lágrimas – acho que todos fazem isso quando vêem alguém chorando – eu vejo que choro, independente do que imaginem ou suponham estar acontecendo.
Algumas lágrimas depois, ritual de recomposição do que restou. Olhos inchados, posso vê-los no espelho do blush. E todos acompanham meus gestos no trem, gostam de acompanhar as minhas esquisitices, é impressionante. Uma camada de pó compacto, o blush amigo, dois traços de lápis de olho, batom e voilá, tudo quase de volta ao lugar. É chegada a estação Central do Brasil e mais um dia de trabalho me espera. Na mente a certeza de que os cosméticos podem tratar e tentar tornar apresentável o externo, tarefa fácil, pena é que não possam amenizar também o que vai por dentro. Se eu pudesse, passaria um batom vermelho carmim no coração, colocaria-lhe um salto alto e mandaria pra balada, ver gente, oxigenar, bombear sangue novo rejuvenecedor. Mas não posso nada disso. O coração hoje é um velho, ranzinza, de pantufas, assistindo Sessão da Tarde e esperando a hora de parar.
Publicado em 29 de julho de 2008 às 18:08 por estela

Muito frequentemente tenho percepções estranhas com relação ao tempo. Incomoda ter que gastá-lo com tanta coisa mecânica e sem sal, a eterna sensação de tê-lo perdido, definitivamente. Esse milionésimo de segundo aqui, por exemplo, foi-se para sempre, para a terra das horas já carcomidas. E outros milionésimos estão indo também para lá, agora mesmo, de novo. E eu penso que queria tê-los utilizado de maneira mais sábia - não no caso desses aqui, pois tempo gasto com escrita é 100% de aproveitamento – queria lembrar deles lá na frente como milionésimos de segundos felizes e bem aproveitados, e não com essa idéia de desperdício que tenho em mente. É tanta coisa que se esvai com eles, que me sinto quase sempre perdendo nessa matemática.
Sei da necessidade de tarefas mecânicas. Sei que é preciso trabalhar e prover sustento. Só que estou sempre sabotando esses processos, todos os dias. Há horas em que eu quero ler Rimbaud, numa urgência severa, e entre as coisas chatas que eu tenho que fazer no trabalho e o poético, estou sempre tendendo a abortar as coisas chatas, mesmo as indispensáveis. Faço-as com desdém, sempre de forma muito rápida e objetiva, para que sobrem milionésimos a serem gastos no que realmente me interessa. E é nessa hora que eu acho aquele texto foda, que me traz tudo que eu estava procurando ler, saber, entender, e então eu aproveito o tempo milimetricamente, com alimento para a alma. E lá no finzinho do expediente eu faço aquele bando de coisa chata que tinha de ser feito. Rs.
Definitivamente eu não nasci para o burocrático. Há tanto além do quadrado do escritório, tanta vida por todo lado, que me recuso a ficar encarcerada, engaiolada. Vejo as pessoas nas ruas em sua pressa costumeira, passando por cima de tudo e acho muito absurdo que um relógio ou mesmo o dinheiro roube delas a possibilidade de frear essa maluquice toda. Correr para mim não é aproveitar nada. Eu, com o passar dos anos, venho desenvolvendo uma técnica maravilhosa de não-corrida. Quando estou atrasada, aí mesmo é que me recuso a correr. E vou na moita, aceitando que estou fora do horário e que isso não é tão fatal assim, e que não vão lançar outra bomba sobre Hiroshima porque eu cheguei meia hora depois do previsto. Eu tenho louvado regularmente a vagareza, no mais alto estilo vagabundagem. Eu não acredito que nós fomos colocados aqui embaixo para viver correndo, de fast food em fast food. Deve haver algum lugar em que se possa sorrir mais, aproveitar mais... Tem que haver um jeito de tudo não ser assim tão pateticamente mecânico.
É por isso que eu me recuso a aceitar, terminantemente. Quero burlar isso tudo, quero a contemplação como objetivo de vida. E sempre que eu consigo, os milionésimos de segundo são plenamente vividos, posso olhar para eles com o orgulho de quem não aceita ser robô de nada, nem escrava de nenhum papel moeda. Pena mesmo é que não seja possível praticar a letargia todo o tempo. Pena esse atropelo, pena essa falta de, parar tudo, simplesmente. Pena que as pessoas vivam em suas bolhas particulares, e que não olhem para o lado vez em quando. Eu ainda olho.
Publicado em 25 de julho de 2008 às 15:07 por estela

Eu nunca fiz isso, sugerir filme ou música pra ninguém. Só que esse é um caso particular. Uma das mais excelentes atuações da linda Leandra Leal, que eu pegava, e como pegava. E não é só isso! O filme retrata a história da problemática Camila – Clara Averbuck, na verdade – em sua quase sádica tentativa de escrever o seu primeiro livro, viver das Letras, e suas peripécias blogueiras. Para quem tem o hábito da escrita vai ser um deleite, traz bem aquela coisa da inspiração que surge, urgente, do exercício de procurar as palavras como quem procura a salvação do mundo.
Ela passa 80% do filme nua, mas nem é esse o maior atrativo. Os relacionamentos dela com os caras, e com uma amiga, também são fielmente retratados, cenas chocantes, sexo do bom, nem sei como eu saí inteira daquela sala de cinema (rs). É daqueles que rendem horrores quando se chega só, em casa. É difícil ver um filme com tão poucos personagens ser tão completo como esse.
Enfim, tudo belíssimo e vale muito à pena, vejam.
Publicado em 23 de julho de 2008 às 16:40 por estela

Plena semana do fatídico dia dos namorildos, excelente oportunidade para se reavaliar – solteiros ou não – o nosso potencial de atrair atenção dos outros em ambientes públicos e situações cotidianas. É triste concluir, mas se eu dependesse exclusivamente do meu poder de sedução falido para atrair alguém para minhas teias, estaria seguramente fadada ao celibato. Não que eu não seja olhada, observada, seguida por pares de olhos alheios, até devo ser, em alguns momentos, o problema mesmo é a minha total desatenção aos sinais de paquera, mesmo aquelas muito embaixo do meu nariz, e uma falta de talento natural para responder à investidas. Investir então, esquece.
Deve ser por isso então que eu não passo por 90% das situações constrangedoras que ouço por aí. Nunca recebi telefonemas de admiradores (as) secretos (as), porque eu nunca dou meu número para ninguém. Não tenho que despachar pretendentes malas, pois sequer permito aproximações. Não preciso fingir que não conheço, ou inventar roupas diferentes para despistar pretendentes em encontros públicos, porque também não me lembro de ter marcado nada nesse sentido até hoje. Vantagens óbvias de quem é quase uma muralha no que tange às outras pessoas, entretanto, perde-se oportunidades de ouro (perde-se?) com esse retraimento todo. O pouco que me lembro da prática de paquerar vem dos idos de minha adolescência, época em que eu tinha muito menos juízo na cabeça e era mais saidinha também, ou seja, faz lá alguns bons amargos anos.
Quem lê pode então concluir que eu sair de alguma situação de encalhe é algo pouco provável. Na verdade eu nunca me senti assim, 100% encalhe, porque eu lido de forma bastante natural com a solteirice. Jamais saio à caça, deixo apenas que as coisas fluam, quando me parecem adequadas/proveitosas. Felizmente foram raros os meus períodos de vacas magras, sempre há uma boa carta na manga, algo que eu quero viver ainda ou alguém que pretendo conhecer melhor. É tudo uma mera questão de saber identificar cenários, há coisas que têm maior probabilidade de darem certo e outras que são barcas furadas, mas no geral é ir em frente, e de preferência sem precisar depender daquela piscada de olhos cafona na mesa do bar, correndo o sério risco de um toco monumental, já que eu tenho pouco talento para este negócio. Pelo menos essa é a minha técnica.
Sexta passada, entretanto, fui abordada por uma criatura. Ele veio até mim no ponto final do meu ônibus, local pouco convencional para essas práticas, com um papo estranho, que eu confesso ter entendido pouca coisa e fez coisas inéditas: cantou-me descaradamente sem ao menos nunca ter me visto na vida, sorriu, foi simpático e, sobretudo, cara de madeira sênior. Pediu o número do meu celular, eu disse que não tinha. Pediu-me uma caneta para anotar o número dele, eu disse que também não tinha, super solícita, como sempre. Ele correu desesperado para uma banquinha de doces próxima, a fim de conseguir uma bic, anotou o seu telefone num papelzinho e entregou-me sorrindo. A justificativa é que foi genial. Disse ele que trabalha muito, que não tem tempo de conhecer ninguém. Que era para eu ligar para “fazer alguma coisa”. Oras, mas eu já faço várias coisas... Penso eu: a que ponto chega a solidão humana? Abordar uma moça num ponto final de ônibus urbano com essa conversa? Em plena sexta-feira? Uma semana antes do Dia dos Namorados? O moço está mesmo em desespero de causa. Se alguma moça aqui que me lê quiser fazer caridade, eu juro que forneço o número do moço. Djalma é o nome dele. [rs]
Publicado em 09 de junho de 2008 às 16:05 por estela