Blérgh!

Policiais sem fuzis



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Ah sim. Fui acordada hoje pela notícia de que a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro decidiu tirar das mãos dos policiais os seus fuzis. E trocá-los por carabinas. Levando-se em conta que um fuzil causa estrago em média até a distância de dois quilômetros do alvo, e a carabina à 400m, fica mais difícil do policial matar alguém sem saber quem é, a não ser que ele seja bem míope.


Acho isso de uma lindeza ímpar. Principalmente pelo fato de que os fuzis serão extintos das ruas, mas poderão ainda ser usados em operações nas áreas de risco. E se eles, da Secretaria de Segurança, assumem com esta determinação que há policiais despreparados para portar tais armamentos – por isso mudam o poder de alcance do estrago – permitem ao mesmo tempo que tais policiais usem à vontade seu armamento nas áreas críticas, ou seja, que se foda quem mora na favela, pode tomar de fuzil à vontade. Grandes merda se morrer um ou três, depois escrevem lá no jornal que o morto era do tráfico, mesmo se não fosse, só pra ficar bunitinho.


Treinar os caras para usar tais armas? Treinar os caras com táticas dignas e prudentes em suas operações? Aí não, disso ninguém fala. A bala perdida não pode acontecer em Ipanema, no asfalto dos turistas e da classe privilegiada, mas pode tranquilamente varar o barraco do cidadão no Complexo do Alemão. Acho um barato esse raciocínio.


Publicado em 31 de julho de 2008 às 12:46 por estela

Um texto para mim.



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Lembro como se fosse hoje. Estava eu na primeira fila do Canecão, num show que eu não sei mais se era Zélia Duncan ou Calcanhotto, e era fim de show. Alguém encostou, pedindo passagem, bem perto do palco. Olhei para trás e não vi ninguém, abaixei os olhos e vi-o, educado, olhos com expressão de cansaço. Era o Herbert, o Vianna. Aquele, dos meus vinis de tanto tempo empoeirados.


Pode ser este assunto datado para um texto, mas o fato é que ele continua impressionando a muitos por aí. Lembro que eu rezava, enquanto ouvia as notícias no rádio e acompanhava a tragédia que o assolou, e pelos andares sentia um infinito pesar, parecia claro que nem eu, nem o Brasil, teríamos mais ele compondo, ou cantando, ou mesmo vivo. Graças a Deus ele ainda canta, ainda compõe, ainda vive.


Todo o dinheiro do mundo para tratamentos? Uma força de vontade tamanho Highlander? Um amor à arte que suplantou o improvável? Uma memória emocional que trouxe de volta as letras todas? Até hoje eu me pergunto o que aconteceu afinal. O fato é que ele continua, e vendo-o no palco pode-se comprovar o quanto ele ainda é inteiro, mais que eu e que muitos, contrariando todos os nefastos prognósticos. Uma mente brilhante que trabalha com limitações extremas, e continua juntando palavras e acordes, para nossa estupefação.


Mesmo para quem não é chegado à obra do Herbert, ou do Paralamas, há que se perceber a grandeza do que aconteceu com ele. Era tudo para dar errado, era uma vida de vegetal quase 100% consumada. E quantos de nós ainda não vivemos vagando por aí no mundo, feito vegetais, sem ter sofrido acidente algum. Ele preferiu fazer a fotossíntese, reinventar a vida à dar-lhe cabo, e sua seiva está aí, elaborada para nós. Sei que estou já nos limiares da pieguice, mas perdoem, é próprio de fã. Fiz questão de registrar isso aqui hoje mais por mim que pelo Herbert, para sentir nas vísceras o quanto eu não tenho motivos pra reclamar da vida. Não é coerente que ele seja tão gigante, tendo vivido tudo o que viveu, e eu tão mísera, lamentando a morte da bezerra e achando os meus problemas enormes. Hoje eu ando e me arrasto sobre o tempo. Ele anda sobre rodas, e flutua.





Publicado em 30 de julho de 2008 às 18:00 por estela

é, um pouco deprê.



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For how much longer can I howl into this wind?
For how much longer
Can I cry like this?
A thousand wasted hours a day
Just to feel my heart for a second
A thousand hours just thrown away
Just to feel my heart for a second
For how much longer can I howl into this wind?




Ramal Santa Cruz, Rio de Janeiro, vagão de trem. Em pé, com dor em todos os poros existentes. A face da desolação era visível, pois bem sei que não consigo fingir felicidade quando necessário. Uma lágrima que rola tão clara, imensa, cai de 1,74m de altura, cuja trajetória foi percebida por um passageiro que estava sentado. Por comiseração, acho eu, ele me oferece o seu lugar e eu aceito, para que então eu passe a derramar as próximas em meu próprio colo, ao invés de regar os que estão sentados.


Sempre aparece quem fale de Deus, e foi o que fez o passageiro gentil. Eu sei de Deus, eu ando com ele, entretanto, lágrimas são presentes e serão sempre, em qualquer lugar que eu quiser que elas caiam. E neste caso elas têm uma infinidade de motivos para cair, nada que não tenha solução, mas motivos reais. Acho que seria prudente aprender a guardá-las para evitar os olhares de pena do público? Não. Fico pensando às vezes o que acham de mim as pessoas que me olham enquanto choro, não que eu me preocupe com o que pensem. Quando vejo suas caretas ao meu encontro procurando decifrar o motivo das lágrimas – acho que todos fazem isso quando vêem alguém chorando – eu vejo que choro, independente do que imaginem ou suponham estar acontecendo.


Algumas lágrimas depois, ritual de recomposição do que restou. Olhos inchados, posso vê-los no espelho do blush. E todos acompanham meus gestos no trem, gostam de acompanhar as minhas esquisitices, é impressionante. Uma camada de pó compacto, o blush amigo, dois traços de lápis de olho, batom e voilá, tudo quase de volta ao lugar. É chegada a estação Central do Brasil e mais um dia de trabalho me espera. Na mente a certeza de que os cosméticos podem tratar e tentar tornar apresentável o externo, tarefa fácil, pena é que não possam amenizar também o que vai por dentro. Se eu pudesse, passaria um batom vermelho carmim no coração, colocaria-lhe um salto alto e mandaria pra balada, ver gente, oxigenar, bombear sangue novo rejuvenecedor. Mas não posso nada disso. O coração hoje é um velho, ranzinza, de pantufas, assistindo Sessão da Tarde e esperando a hora de parar.


Publicado em 29 de julho de 2008 às 18:08 por estela

Robozinho, eu?



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Muito frequentemente tenho percepções estranhas com relação ao tempo. Incomoda ter que gastá-lo com tanta coisa mecânica e sem sal, a eterna sensação de tê-lo perdido, definitivamente. Esse milionésimo de segundo aqui, por exemplo, foi-se para sempre, para a terra das horas já carcomidas. E outros milionésimos estão indo também para lá, agora mesmo, de novo. E eu penso que queria tê-los utilizado de maneira mais sábia - não no caso desses aqui, pois tempo gasto com escrita é 100% de aproveitamento – queria lembrar deles lá na frente como milionésimos de segundos felizes e bem aproveitados, e não com essa idéia de desperdício que tenho em mente. É tanta coisa que se esvai com eles, que me sinto quase sempre perdendo nessa matemática.


Sei da necessidade de tarefas mecânicas. Sei que é preciso trabalhar e prover sustento. Só que estou sempre sabotando esses processos, todos os dias. Há horas em que eu quero ler Rimbaud, numa urgência severa, e entre as coisas chatas que eu tenho que fazer no trabalho e o poético, estou sempre tendendo a abortar as coisas chatas, mesmo as indispensáveis. Faço-as com desdém, sempre de forma muito rápida e objetiva, para que sobrem milionésimos a serem gastos no que realmente me interessa. E é nessa hora que eu acho aquele texto foda, que me traz tudo que eu estava procurando ler, saber, entender, e então eu aproveito o tempo milimetricamente, com alimento para a alma. E lá no finzinho do expediente eu faço aquele bando de coisa chata que tinha de ser feito. Rs.


Definitivamente eu não nasci para o burocrático. Há tanto além do quadrado do escritório, tanta vida por todo lado, que me recuso a ficar encarcerada, engaiolada. Vejo as pessoas nas ruas em sua pressa costumeira, passando por cima de tudo e acho muito absurdo que um relógio ou mesmo o dinheiro roube delas a possibilidade de frear essa maluquice toda. Correr para mim não é aproveitar nada. Eu, com o passar dos anos, venho desenvolvendo uma técnica maravilhosa de não-corrida. Quando estou atrasada, aí mesmo é que me recuso a correr. E vou na moita, aceitando que estou fora do horário e que isso não é tão fatal assim, e que não vão lançar outra bomba sobre Hiroshima porque eu cheguei meia hora depois do previsto. Eu tenho louvado regularmente a vagareza, no mais alto estilo vagabundagem. Eu não acredito que nós fomos colocados aqui embaixo para viver correndo, de fast food em fast food. Deve haver algum lugar em que se possa sorrir mais, aproveitar mais... Tem que haver um jeito de tudo não ser assim tão pateticamente mecânico.


É por isso que eu me recuso a aceitar, terminantemente. Quero burlar isso tudo, quero a contemplação como objetivo de vida. E sempre que eu consigo, os milionésimos de segundo são plenamente vividos, posso olhar para eles com o orgulho de quem não aceita ser robô de nada, nem escrava de nenhum papel moeda. Pena mesmo é que não seja possível praticar a letargia todo o tempo. Pena esse atropelo, pena essa falta de, parar tudo, simplesmente. Pena que as pessoas vivam em suas bolhas particulares, e que não olhem para o lado vez em quando. Eu ainda olho.

Publicado em 25 de julho de 2008 às 15:07 por estela

Nome Próprio



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Eu nunca fiz isso, sugerir filme ou música pra ninguém. Só que esse é um caso particular. Uma das mais excelentes atuações da linda Leandra Leal, que eu pegava, e como pegava. E não é só isso! O filme retrata a história da problemática Camila – Clara Averbuck, na verdade – em sua quase sádica tentativa de escrever o seu primeiro livro, viver das Letras, e suas peripécias blogueiras. Para quem tem o hábito da escrita vai ser um deleite, traz bem aquela coisa da inspiração que surge, urgente, do exercício de procurar as palavras como quem procura a salvação do mundo.

Ela passa 80% do filme nua, mas nem é esse o maior atrativo. Os relacionamentos dela com os caras, e com uma amiga, também são fielmente retratados, cenas chocantes, sexo do bom, nem sei como eu saí inteira daquela sala de cinema (rs). É daqueles que rendem horrores quando se chega só, em casa. É difícil ver um filme com tão poucos personagens ser tão completo como esse.
Enfim, tudo belíssimo e vale muito à pena, vejam.

Publicado em 23 de julho de 2008 às 16:40 por estela

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Legal essa bagaça.

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